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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

POESIA DE CASTRO ALVES

  POESIA     

     A CANÇÃO DO AFRICANO
        CASTRO  ALVES


 




  Lá na úmida senzala,
  Sentado na estreita sala,
 Junto ao braseiro, no chão,
 Entoa o escravo o seu canto,
  E ao seu cantar correm-lhe em pranto
  Saudades do seu torrão...


 De um lado, uma negra escrava
 Os olhos no fim crava,
 Que tem no colo a embalar ...
 E à meia voz lá responde
 Ao canto, e o filhinho esconde,
  Talvez p'ra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem ;
 Esta terra é mais bonita,
 Mas à outra eu quero bem!"

" O sol faz lá tudo em fogo,
 Faz em brasa toda a areia;
 Ninguém sabe como é belo
 Ver de tarde a papa-ceia!"

"Aquelas terras tão grandes,
 Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ..."


"Lá todos vivem felizes,
 Todos dançam no terreiro;
 A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro"


O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
 O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar com o pranto
 O seu filhinho a sonhar!


O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
 Bem antes do sol nascer,
 E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
 Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
 Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
 Não viesse, em meio do sono,
 De seus braços arrancá-lo!


Fonte Bibliográfica: 
Nova Enciclopédia Brasileira de Consultas e Pesquisas
Novo Brasil Editora Brasileira Ltda